O stress pode prejudicar a criatividade no seu trabalho de freelancer?

Existem alguns trabalhos de freelancer que necessitam de um pouco mais de criatividade. E criatividade requer tempo para pensar, imaginar várias soluções e por vezes estudar um pouco mais. Mas num mundo tão rápido como o da internet, será possível manter os níveis de criatividade em altas mesmo quando existe pressão para que tudo seja concluído em meia dúzia de dias? Este desequilíbrio tempo/criatividade surge muitas vezes no dia-a-dia de qualquer freelancer. Numa clara tentativa de agradar o cliente, o profissional acaba entregando o trabalho com menor qualidade apenas para cumprir prazos. Será isso benéfico para o futuro da carreira do freelancer?

Para responder a essa pergunta, resolvi pesquisar alguns estudos sobre essa temática e a conclusão parece ser óbvia: prazos curtos e melhores rendimentos costumam prejudicar a performance do criativo. Mas para perceber mais sobre este tema, é necessário recuar ao início do século passado. Quando os relacionamentos entre trabalhadores e chefes começou a ser estudado, o sistema de pagar mais para quem produzisse mais e punisse quem produzisse menos funcionava muito bem. Afinal de contas, grande parte dos trabalhos era pouco motivador e um aumento dos ganhos para quem fizesse mais rápido poderia funcionar como uma motivação extra para trabalhar. Por isso, a criatividade era pouco necessária e o stress até poderia funcionar de forma positiva.

GANHAR MAIS DIMINUI A CRIATIVIDADE

Um dos problemas que os profissionais freelancers também enfrentam na sua carreira é o fator dinheiro/qualidade de trabalho. Se por um lado estes profissionais autônomos pretendem aumentar os seus rendimentos, por outro isso apenas é possível (a curto prazo) com o aumento do volume de trabalho. O problema é que esse volume de trabalho excessivo acaba muitas vezes prejudicando a produtividade. Ou poderá ser o aumento dos ganhos um fator que aumenta a criatividade? Vejamos:

Mark Lepper e David Greene realizaram, em 1978, um estudo que tinha como objetivo analisar se os jovens produziam mais quanto maior fosse a sua recompensa. Para isso, dividiram as crianças que gostavam de passar o seu tempo livre a desenhar em três grupos . O primeiro receberia como recompensa o certificado de “bom jogador” caso conseguisse fazer mais desenhos. O segundo teria uma recompensa inesperada enquanto que o terceiro não tinha qualquer recompensa. Depois, entregaram papéis e marcadores aos jovens e observaram-nos durante vários dias. Os dois últimos grupos, acabaram por ter desempenhos semelhantes aos que tinha anteriormente. No entanto, o primeiro grupo – o único que sabia realmente que tinha uma recompensa – acabou produzindo menos. De fato, o fator recompensa acabou por ter um efeito negativo na sua motivação pois passaram a ver algo divertido (o desenho) como um trabalho sério (devido à sua recompensa).

“Quando as instituições se concentram nos efeitos de curto prazo e optam por controlar os comportamentos das pessoas produzem um prejuízo considerável a longo prazo”, explicam os responsáveis pelo estudo. O mesmo serve para vários conceitos da nossa vida. Se dissermos a uma criança que leia três livros por mês, é provável que ela ao fim do segundo livro perca todo o interesse. Esta lógica ajuda a perceber porque estará a adiar constantemente os objetivos.

O PROBLEMA DA VELA

O problema da vela de Karl Duncker

Um dos estudos mais conhecidos nesta área foi realizado por Karl Duncker, nos anos 30. “O problema da vela” é muito conhecido e pode ser feito até por si, aí em casa, caso pretenda. Tudo funciona como a imagem que vê acima: é dado uma vela, uma caixa com pioneses e fósforos. O objetivo é prender a vela à parede e fazer com que a cera não pingue na mesa. Nas primeiras tentativas, as pessoas tentam várias soluções e só passado cinco ou dez minutos é que acabam por optar pela segunda imagem. O problema é que grande parte das pessoas apenas olha para a caixa como um objeto que fica com os pioneses e não como ajuda para segurar a vela. O que quero dizer com tudo isto é que esta solução não é algorítmica (fazer algo para chegar a uma recompensa) mas sim heurística (sair do normal para encontrar uma solução). Este mesmo gênero de trabalho é realizado por designers, escritores ou fotógrafos freelancers.

Poucos anos depois, Sam Glucksberg fez um estudo com o intuito de verificar se uma recompensa financeira acabaria por levar os participantes a resolver este problema mais rapidamente. Dividiu os participantes em dois grupos. Ao primeiro disse apenas que estaria a contar o tempo para um estudo posterior enquanto que para o segundo ofereceu incentivos. Se o participante ficasse entre os 25% melhores, receberia 5 dólares enquanto que o mais rápido de todos recebia 20. Contudo, os resultados foram um pouco díspares: o grupo que foi pago demorou quase três minutos e mais a mais do que o grupo que trabalhou de graça. O que aconteceu aqui foi bastante simples: a pressão, recompensa e stress, acabaram por roubar a criatividade a um dos grupos.

Se quiser saber mais, veja este nosso artigo sobre os 10 vídeos TED que qualquer empreendedor deveria ver, no qual Daniel Pink fala sobre este caso.

Como puderam ver, muitas vezes a recompensa maior até acaba por diminuir a capacidade crítica. A ideia de que quanto maior o ganho maior a motivação apenas funciona a curto prazo. No entanto, recorde-se que estamos a falar de trabalhos criativos. Em projetos que apenas é preciso cumprir tarefas e não existe qualquer capacidade criativa no processo, utilizar uma recompensa maior para motivar costuma funcionar bastante bem.

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A IMPORTÂNCIA DOS OBJETIVOS

Por mais que motivador que uma tarefa seja, um ponto parece ser do senso comum: todos precisamos de dinheiro para sobreviver. Além disso, todos gostamos de ter um bom carro, um bom computador ou uma casa confortável. Ninguém está imune a isso e quando o trabalho é bem feito sem dúvida que deve ser bem pago. E é neste ponto que os objetivos são fundamentais. As metas orientam as nossas mentes para um resultado final e guiam-nos num determinado sentido. Isso é muito positivo, pois permite que deixemos de andar à deriva e passemos a ter um rumo. No entanto, esses mesmos objetivos podem ser limitadores da evolução.

O melhor exemplo foi um estudo feito em 2000 pelos economistas Uri Gneezy e Aldo Rusticihini. Eles estudaram um grupo de creches em Haifa, uma cidade de Israel. As creches abriam às 7:30 e fechavam às 16 horas. O problema é que muitos pais chegavam sempre depois da hora, acabando por fazer com que as funcionárias ficassem até mais tarde. Para resolver esse problemas, os donos decidiram começar a multar quem chegasse atrasado. Mas quando tudo levaria a crer que os atrasos iriam diminuir, a verdade é que os pais começaram a demorar o dobro do tempo que demoram antes. O que fazia os pais chegar antes era o respeito pelos professores e funcionárias. A partir do momento em que começou a existir dinheiro envolvido, os pais viram aquilo como algo normal e preferiram começar a pagar por isso.

Este estudo pretendia verificar se, afinal de contas, os objetivos poderiam ser algo benéfico ou não. Neste caso, concluiu-se que os objetivos definidos por terceiros poderiam funcionar até de forma contrária. Ao oferecer uma recompensa, a creche disse indiretamente aos pais que aquela tarefa era indesejada. No entanto, esse sinal inicial orientou os pais para um caminho difícil de abandonar, sendo que das próximas vezes eles não vão sequer pensar nos professores ou nas funcionárias.

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Portanto, os objetivos não são de todo uma má fonte para aumentar a motivação. Porém, devem ser explicados os seus benefícios, a forma como pretende lá chegar e qual o caminho que deve ser percorrido. Além disso, ele deve ser imposto pelo trabalhador (neste caso o freelancer). Ao definir objetivos, faça-os você mesmo mas não visualize apenas o resultado final mas sim o que irá aprender durante todo esse percurso. Caso contrário, poderá sentir-se demasiado tentado a queimar etapas, o que poderá ser prejudicial no futuro.

Dica: 5 regras para definir objetivos corretamente

O QUE FAZER PARA NÃO PREJUDICAR A CRIATIVIDADE?

Todos os dias temos situações dos dois tipos: algorítmica e heurística. Por isso, é necessário saber como lidar em cada uma delas, principalmente no caso dos freelancers. Portanto, vamos ver o que deve ser feito em cada caso para que possa ser eficaz em ambas as situações:

  • Algorítmica: Como é um trabalho repetitivo tem duas opções: pedir para receber mais ou então tentar realizar essa tarefa o mais rápido possível. Como a princípio é um trabalho que qualquer pessoa pode fazê-lo, a questão do preço não deve funcionar muito bem portanto o melhor mesmo é pensar em fazer as tarefas o mais rápido possível. Defina um tempo máximo para realizá-las e foque-se nessas tarefas. Só assim conseguirá aumentar a sua motivação para concluir tarefas que em nada contribuem para a sua evolução mas que precisam de serem feitas.
  • Heurística: Quando o trabalho envolver mais a sua vertente criativa, opte por não olhar tanto para o retorno financeiro em si mas sim à sua evolução pessoal e profissional. Ter um trabalho bem elaborado, com menos pressão, poderá levá-lo a um patamar superior e a uma motivação maior para realizá-lo. No fundo, pense mais na sua carreira a longo prazo do que na recompensa imediata.

CONCLUSÃO

Todos nós precisamos de ganhar dinheiro. Isso é um dado adquirido. No entanto, nem sempre uma recompensa maior a nível financeiro pode ser melhor para a sua carreira a longo prazo. Tenha como prioridade aceitar trabalhos mais desafiadores e que o motivem mais a trabalhar ao invés de trabalhos mais monótonos e que podem condicionar a sua carreira. Faça bem essa gestão e veja a sua motivação para trabalhar subir consideravelmente.

Abraço!

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Comentários (4)

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  • Erick Costa from Empreendeblog

    Que artigo fantástico Luciano, adoro pesquisas como esta da vela que você citou. Muito bom mesmo.

    27/11/2012

    Responder
  • David William da COsta

    Muito bom este artigo.

    28/11/2012

    Responder
  • renata

    Gostei bastante do artigo!

    Só acho que o título "GANHAR MAIS DIMINUI A CRIATIVIDADE" deveria ser "TRABALHAR MAIS DIMINUI A CRIATIVIDADE". Porque uma remuneração mais alta pelo trabalho aumenta o entusiasmo, dá-nos a oportunidade de dedicar mais tempo ao trabalho, justamente porque não haverá necessidade de ir atrás de tantos novos projetos. Assim, com tempo e dedicação a criatividade flui melhor e com certeza o resultados erá melhor.

    22/01/2014

    Responder
  • Fábio Meirelles

    Parabéns, matéria muito boa!

    21/04/2015

    Responder

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